24.1.10

Fogueira do Natal 2009









(Fotos de Nuno Vicente)


Em Sameiro e em muitas aldeias da Beira Interior a tradição da fogueira de Natal ou madeiro de Natal ainda é (e foi) cumprida.
Esta é uma tradição milenar, cujas origens remetem para primitivos cultos pagãos, de celebração do solstício de Inverno, com o acender de enormes fogueiras ao ar livre.

31.12.09

Receita de Ano Novo



Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um
apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras
parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Carlos Drummond de Andrade

Texto extraído do "Jornal do Brasil", Dezembro/1997

25.12.09

No dia de Natal a neve apareceu







A formiga e a neve

Uma formiga prendeu o pé na neve.
“Ó neve, tu és tão forte que o meu pé prendes!”
Responde a neve: “Tão forte sou eu que o sol me derrete.”
“Ó Sol, tu és tão forte que derretes a neve que o meu pé prende!”
Responde o Sol: “Tão forte sou eu que a parede me impede.”
“Ó parede, tu és tão forte que impedes o Sol, que derrete a neve, que o meu pé prende!”
Responde a parede: “Tão forte sou eu que o rato me fura.”
“Ó rato, tu és tão forte que furas a parede que impede o Sol, que derrete a neve, que o meu pé prende!”
Responde o rato: “Tão forte sou eu que o gato me come.”
“Ó gato, tu és tão forte que comes o rato que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!”
Responde o gato: “Tão forte sou eu que o cão me morde.”
“Ó cão, tu és tão forte que mordes o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!”
Responde o cão: “Tão forte sou eu que o pau me bate.”
“Ó pau, tu és tão forte que bates no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!”
Responde o pau: “Tão forte sou eu que o lume me queima.”
“Ó lume, tu és tão forte que queimas o pau, que bate no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!”
Responde o lume: “Tão forte sou eu que a água me apaga.”
“Ó água, tu és tão forte que apagas o lume, que queima o pau, que bate no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!”
Responde a água: “Tão forte sou eu que o boi me bebe.”
“Ó boi, tu és tão forte que bebes a água, que apaga o lume, que queima o pau, que bate no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!”
Responde o boi: “Tão forte sou eu que o carniceiro me mata
Ó carniceiro, tu és tão forte que matas o boi, que bebe a água, que apaga o lume, que queima o pau, que bate no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!”
Responde o carniceiro: “Tão forte sou eu que a morte me leva.”


Do livro Contos Populares Portugueses de Adolfo Coelho, 1879.

24.12.09

Feliz Natal



Foi tudo tão pontual
Que fiquei maravilhado
Caiu neve no telhado
E juntou-se o mesmo gado
No curral.
Nem as palhas da pobreza
Faltaram na manjedoira!
Palhas babadas da toira
Que ruminava a grandeza
Do milagre presentido.
Os bichos e a natureza
No palco já conhecido...
Mas, afinal, o cenário
Não bastou.
Fiado no calendário,
O homem nem perguntou
Se Deus era necessário ...
E Deus nem representou.


Miguel Torga